Mulheres sobreviventes


Sonia Branco

A violência contra mulher é um tema recorrente na História da humanidade. Em todo o curso da estruturação da sociedade a mulher sempre foi vitima do desejo doentio de poder dos homens que, na grande maioria, só sentiam prazer pelo subjugo feminino.

Subjugar, humilhar, condenar, rotular, abusar, abusar, abusar.

Ainda hoje, as mulheres continuam vitimas dos homens, mas, mais atual, de si mesmas.

Nunca se matou, mutilou, violou e abusou-se tanto das mulheres como agora.

Já há alguns anos, tenho tido contato com mulheres que foram vitimas de abusos fisicos, emocionais e sexuais na infância e que nunca contaram suas histórias e, consequentemente, receberam ajuda, crescendo com suas dores e estigmas, rotulando a si mesmas, como merecedoras de toda falta de sorte e amor.

Mulheres sobreviventes, que não conseguem ir adiante, que não conseguem construir suas vidas em paz, sem repetir erros as quais foram condenadas na infância.

Essas mulheres foram condenadas por seus pais, irmãos, tios... homens que deveriam ser seus protetores e procuram por parceiros, maridos, chefes, colegas de trabalho, que repitam, incessantemente seus tormentos.

Algumas delas conseguem realizar alguns projetos de vida na área profissional, mas sua vida emocional e afetiva permanecem doentes e sem tratamento.

Outras procuram ajuda apenas depois de adultas, porque conseguem compreender que suas feridas não serão cicatrizadas se não puderem contar com o cuidado terapeutico.

Atendi essas mulheres ao longo de minha vida profissional. Secretárias que perderam a voz por serem abusadas emocionalmente por seus chefes, que as humilhavam e que as consideravam sem direito a expressar ideias, emoções ou sentimentos.

Esposas que se casam com homens violentos, ofensivos e que as humilham quanto suas aparências e sua capacidade de gerir a própria vida.

Mães que são agredidas e abandonadas por seus filhos que se aproveitam de seu amor e sua maternagem para garantir e se apropriar de suas poses e bens materiais.

Enfim, o dia a dia, os jornais e as delegacias estão cheias de casos e mais casos de mulheres que não foram cuidadas ao longo de seu crescimento e que permaneceram acreditando que deveriam ser infelizes e permanecer sendo abusadas por toda a vida.

Essas mulheres sobreviventes não estão apenas nas historias da vida real, mas também nos filmes, nos livros e nos contos, de Fada.

Heroinas dos Contos de Fada foram vitimas de abusos na infancia, todas, ou quase todas.

Em meu livro Contos de Fada – vivências e técnicas em arteterapia compilei contos que falam de princesas que foram abusadas e violentadas na infância e na juventude.

Nele, Rapunzel é trocada por seu pai, para atender os desejos da gravidez de sua mãe, por um punhado de raponzos (repolhos) e passa sua infância e sua adolescência presa no alto da torre.

Maria é abandonada pelos pais, com seu irmão João, na floresta para morrer de fome. É resgatada por uma velha que a submete aos serviços domesticos, tendo que “engordar” seu irmão para servir de alimento para a velha. Ela é obrigada a lutar por sua vida e pela vida de João, e buscar sua liberdade.

Bela Adormecida é vitima da maldição invejosa de uma das suas madrinhas e, após dormir 100 anos, e sendo abusada sexualmente por aquele que deveria ser seu libertador, desperta mãe de dois filhos.

Mas essas mulheres, também estão presentes nos Mitos Gregos. Elas sofrem todo tipo de humilhação e abusos não só pelas mãos dos seus algozes, mas pela ira das Deusas a quem dedicaram suas orações.

O maior exemplo disso é a historia de Medusa, conta o mito que Medusa era um linda donzela e sacerdotiza do templo de Atena. Estuprada por Poseidon dentro do templo, e abandonada à própria sorte, é punida pela Deusa Atena, condenada a viver eternamente solitária numa ilha deserta, onde nenhum homem jamais a olharia novamente sob a pena de transformar-se em estatua. Perdeu seus lindos cabelos e seus olhos encantadores tornaram-se uma arma contra si mesma.

Também Ariadne foi vitima de seu amor. Apaixonada por Teseu, ela entrega seu fio a ele para que possa encontrar o caminho que o libertará do labirirnto depois de matar o Minotauro. Em troca, ele promete casar-se com ela. Mas, a salvo, ele a abandona numa ilha deserta, onde ela tentará o suicídio.

Historias antigas, historias modernas.

Chico Buarque já cantou em seus versos:

Tentou contra a existência, num humilde barracão, Joana de Tal, por causa de um tal João”

Em meu segundo livro, Deuses e Fadas – arteterapia e arquétipos no dia a dia, podemos encontrar outras heroinas dos Contos e dos Mitos.

Cinderela e Vasalisa, vitimas de maus tratos e abusos por suas madrastas; a Bela entregue à Fera por seu pai; Deméter e Prosérpina, mãe e filha separadas pelo amor e pelo desejo incontroláveis de Hades.

Tantas historias e tantas mulheres puderam um dia se encontrar em uma roda de arteterapia, onde a simbologia dos mitos e das heroinas ganharam vida através da argila.

Projeto desenvolvido no Rio de Janeiro em 2012, reuniu um grupo de mulheres, vitimas em sua infância, e que jamais haviam falado sobre isso.

Foi trabalhado o mito da Medusa, na primeira fase do projeto. Através da argila todas puderam dar face às suas Medusas, nas quais foram transformadas por seus algozes durante toda as suas vidas.

Na segunda etapa do projeto elas trabalharam panôs em patchwork, com costuras feitas à mão, dando significação à historia de Ariadne.

E finalmente, na terceira etapa do projeto, elas puderam se sentir libertas através de mandalas contruidas com grãos, simbolizando as tarefas de seperação dos grãos e da fuligem, vividas por Cinderela e Psiquê, vencendo o abandono e encontrando o verdadeiro amor.

 

Sonia BrancoSonia Branco - Especialista em Arteterapia em Educação e Saúde pela Universidade Cândido Mendes – RJ . Fonoaudióloga pela Universidade Estácio de Sá – RJ. Arteterapêuta pelo Curso de Formação de Maria Cristina Urrutigaray – RJ. Contadora de Histórias pela Spaço – RJ.

Site: www.soniabranco.no.comunidades.net| E-mail: sm_branco@yahoo.com.br

 

 

 

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