Mediação de conflitos escolares, educação para a paz e a convivência


Alessandra Maletzki Ramasine

Sabemos que o conflito é algo inerente à vida em sociedade, impossível evitá-lo, e que o seu manejo positivo pode ser uma enorme oportunidade de aprendizado e crescimento moral. Neste sentido, a Escola é instituição de convivência por excelência, conflituosa por definição. Mas diante da realidade diária, como atuar eticamente, favorecendo a reflexão? Se a pergunta tem sido um norteador de profissionais da Educação, também tem recebido atenção dos operadores do Direito, que estão conscientes de que a solução não está na judicialização indiscriminada dos conflitos escolares.

No cenário de diversidade, a Mediação, bem como as demais metodologias dialogais, tem sido uma poderosa ferramenta de transformação e pacificação social, eis que se articula com base nas diferenças e no seu reconhecimento, e não na sobreposição de um sobre o outro. O outro surge como um limite à onipotência do sujeito, e não como uma ameaça à sua existência. O diferente alça um outro lugar, não daquele que deve ser contingenciado, mas daquele que pode somar, acrescer, enriquecer, e que a partir da intervenção positiva dos conflitos escolares, há um favorecimento de relações colaborativas e de crescimento moral.

Pensar a educação nos dias de hoje é, pensar em processos de transformação, em potências e potencialidades desenvolvidas em conjunto. Ou seja, longe de um modelo de transmissão de conhecimento engessado por uma relação professor-aluno pautada na hierarquia e no exercício de poder de um sobre o outro, lançamos o desafio aos professores e alunos de construírem juntos um novo modelo, focando na constituição de um método baseado em paradigmas não restritivos e nas possibilidades de encontros e da criação de um novo espaço e lugar. Um território no qual a integração e a forma de articulação entre professores, alunos, equipes técnica e de apoio, assim como a família e a comunidade do entorno, tornem o processo de construção mais rico, possibilitando derrubar as fronteiras e muros virtuais que envolvem a escola.

Quando foram idealizados os quatro pilares da educação, constantes do então relatório elaborado para a Unesco pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors, (1), a proposta abrangia uma educação direcionada para quatro tipos fundamentais de aprendizagem: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros, aprender a ser. Se ofertado, desde cedo, o

direito a aprender a aprender, realizar e conviver consigo e com o próximo, o aprendiz se veria em nova condição.

Além disso, outra importante obra, o Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz e Não-Violência, desde seu lançamento, suscita reflexões, inspira modos de ser e de estar no mundo, reafirmando os compromissos de respeitar a vida, rejeitar a violência, ser generoso, ouvir para compreender, preservar o planeta e redescobrir a solidariedade, inspirando um agir alinhado com o espírito da cultura de paz dentro de todas as famílias, trabalho/escolas, na comunidade e nas cidades, irradiando valores humanos e diálogo.


(1) - O relatório, transformado no livro Educação: um tesouro a descobrir, em 1999, apresentou os quatro pilares no quarto capítulo. Os sistemas de convivência pautados na justiça, nas práticas e nas disciplinas restaurativas, como alternativas ao sistema punitivo, prenunciam exitosos projetos, com alto potencial de geração de mudanças. Nestes, o respeito é valor e princípio norteador da conduta e pode trazer importantes transformações no sistema escolar.

 

ALESSANDRA MALETZKI RAMASINE - Sócioeducadora. Fonoaudióloga. Mediadora de Conflitos em Justiça Restaurativa em atuação no Sistema Degase/SEEDUC-RJ. Facilitadora da Pedagogia do Cuidado e Reconciliação, através das ES.PE.RE – as Escolas de Perdão e Reconciliação, metodologia adotada pela Fundação Colombiana em programas internacionais de cultura de paz. Terapeuta Humanista ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), Comunitária e Sistêmica, através das Constelações Familiares. Voluntária do CVV – Centro de Valorização da Vida, desde 2010.

Referências/Imagens: Pedagogia da Presença/Protagonismo Juvenil – Prof.Antonio Carlos Gomes da Costa e Programa Compasso.

 

 

 

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