Vivenciando mitos indígenas

CONCEITO-CHAVE: Corpo, espaço, tempo, movimento, drama

INDICAÇÃO: A partir do 5º ano.

OBJETIVOS:

•  Explorar, pela imaginação, situações místicas da cultura indígena, vivenciando-as.

•  Analisar os rituais e os mitos como um processo de potencialização dos indivíduos (alunos).

DESENVOLVIMENTO:

•  Ler a lenda "Como a noite apareceu".

•  Proponha aos alunos que se espalhem pelo espaço respirando intensamente (respiração cachorrinho), depois devem respirar tranqüila e profundamente. Oriente para que soltem o corpo, com movimentos circulares, a partir dos pés, até envolver o corpo todo.

•  Soltando o corpo no espaço, de olhos fechados, devem procurar fazer gestos que signifiquem afastamento, desapego, desintegração. Em seguida, gestos de descarregar, de expelir (com sons de relâmpagos, trovões), de despencar (num rio). É o caos. À medida que vão caindo, devem fazer gestos de aproximação, de integração e de harmonização com a natureza. É o Cosmos.

•  Proponha que procurem entrar em contato com os outros seres, integrando os movimentos, e juntando-se em "tribos”.

•  Cada "tribo" deve criar, num desenho coletivo, o mito de origem de sua "tribo", sua organização cósmica, seu tótem.

•  Pode-se criar, também, uma dança ritual, ligada ao mito, acompanhada ou não de sons orais e instrumentos não-convencionais.

•  Com sua dança ritual, uma tribo desafia outra. Esta responde também com sua dança ritual.

•  Apresentar mitos de cada tribo e/ ou dramatização.

•  Avaliar.

PONTOS DE OBSERVAÇÃO:

•  Ver texto sugerido no final da atividade.

•  Pode-se utilizar qualquer outro mito de origem indígena.

•  O professor pode sugerir que o grupo trabalhe sons de desintegração e/ ou sons harmônicos.

•  Observa-se que após o caos busca-se a integração.

Como a Noite Apareceu

(Lenda pertencente à série "Lendas Tupis", publicada em O Selvagem, Nacional, Coleção Brasiliana)

No princípio não havia noite – dia, somente havia em todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais; todas as coisas falavam.

A filha da Cobra-Grande – contam – casara-se com um moço.

Esse moço tinha três fâmulos fiéis. Um dia, ele chamou os três fâmulos e disse-lhes. – Ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo.

Os fâmulos foram-se, e então ele chamou sua mulher para dormir com ele. A filha da Cobra-Grande respondeu-lhe:

– Ainda não é noite.

O moço disse-lhe:

– Não há noite; somente há dia.

A moça falou:

– Meu pai tem noite. Se queres dormir comigo, mande buscá-la, pelo grande rio.

O moço chamou os três fâmulos; a moça mandou-os à casa de seu pai, para trazerem um caroço de tucumã.

Os fâmulos foram, chegaram, à casa da Cobra-Grande. Esta lhes entregou um caraça de tucumã muito bem fechado e disse-lhes:

– Aqui está; levai-o. Eia! Não o abrais, senão todas as coisas se perderão.

Os fâmulos foram-se, estavam ouvindo barulho dentro do coco de tucumão, assim ten, ten, ten...xi... Era o barulho dos grilos e dos sapinhos que cantam de noite

Quando já estavam longe, um dos fâmulos disse a seus companheiros.

– Vamos ver que barulho será este?

O piloto disse:

– Não; do contrário nos perderemos. Vamos embora, eia, remai!

Eles foram-se e continuaram a ouvir aquele barulho dentro do coco de tucumã, e não sabiam que barulho era.

Quando já estavam muito longe, aluntaram-se no meio da canoa, acenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco e abriram-no. De repente tudo escureceu

O piloto então disse:

– Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, lá sabe que nós abrimos o coco de tucumã!

Eles seguiram viagem.

A moça, em sua casa, disse então a seu mando: – Eles soltaram a noite; vamos esperar a manhã.

Então todas a s coisas estavam espalhadas pelo bosque se transformaram em animais e pássaros.

As coisas que estavam espalhadas pelo rio se transformaram em patos e em peixes.

Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e sua canoa se transformaram em pato; de sua cabeça nasceram a cabeça e o bico do pato; da canoa, o corpo do pato; do remo, as pernas do pato

A filha da Cobra-Grande, quando viu a estrela d'alva, disse a seu marido: – A madrugada vem rompendo. ou dividir o dia da noite.

Então ela enrolou um fio, e disse-lhe:

– Tu serás cujubin. Assim ela fez o cujubin; pintou a cabeça do cujubin de branco, com tabatinga; pintou-lhe as pernas de vermelho com urucu e, então, disse-lhe.

– Cantarás para todo sempre quando a manhã vier raiando.

Ela enrolou o fio, sacudiu cinza em riba dele, e disse:

– Tu serás inhambu, para cantar nos diversos tempos da noite e de madrugada.

De então para cá todos os pássaros cantaram em seus tempos, e de madrugada, para alegrar o princípio do dia.

Quando os três fâmulos chegaram, o moço disse-lhes:

– Não fostes fiéis – abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as coisas se perderam, e vós também, que vos metamorfoseastes em macacos, andareis para todo sempre pelos galhos dos paus.

(A boca preta e risca amarelo que eles têm no braço – dizem – que são ainda o sinal do breu que fechava o caraça de tucumã e que ocorreu sobre eles quando o derreteram )

 

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