Reflexões sobre a Educação Física na Educação Infantil


Fábio Emmanuel

Educação FísicaAs discussões em torno da educação física na educação infantil vêm se intensificando desde a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB no. 9.394/96). De acordo com a nova LDB (Art.26, § 3o.), “A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos”.

Podemos considerar que a sua inserção curricular na esfera da educação infantil significa um avanço para o ensino da educação física (Sousa, Vago, 1997, 125).

Em linhas gerais, observamos que alguns estudos defendem uma organização alinhada com os princípios de uma pedagogia voltada para a experiência e para o interesse da criança, na qual compete à professora “generalista” o desenvolvimento das diversas atividades curriculares. Outros estudos sugerem uma organização próxima do modelo escolar, centrada em disciplinas. Nesse caso, juntamente com a professora “generalista”, aparece a figura da professora (ou professor) “especialista”, com formação em diferentes áreas de conhecimento (como a Educação Física, por exemplo) para ministrar aulas específicas.

Segundo Sayão (1999, p.226), no caso da pré-escola no Brasil, a ideia de educação física e de outras atividades diversificadas do currículo surge muito mais no setor privado do que no público, com a proliferação de “escolinhas infantis” nas décadas de 1970 e 1980,” (...) as quais se utilizaram de elementos como o ballet, jazz, inglês, artes marciais e, mais recentemente, da informática como estratégia de marketing para atrair os pais que podiam pagar por isso”.

Segundo Kuhlmann Júnior. (1999, p.64), a educação infantil não pode deixar de lado a preocupação com uma articulação com o ensino fundamental, especialmente para as crianças mais velhas que logo mais estarão na escola e se interessam por aprender a ler, escrever, contar. Isso poderia ser resolvido muito mais facilmente se houvesse clareza quanto ao caráter da educação infantil, se a criança fosse tomada como ponto de partida e não um ensino fundamental pré-existente. Tomar a “criança como ponto de partida” significa pensar num currículo que contemple diferentes linguagens em suas múltiplas formas de expressão, as quais se manifestam por meio da oralidade, gestualidade, leitura, escrita, musicalidade... “Estas formas de expressão, vividas e percebidas pelo brincar, representam a totalidade do ‘ser criança’ e precisariam estar garantidas na organização curricular da sua educação (...) e não enquadradas em áreas do conhecimento e alocadas em disciplinas” (Sayão,1999, p.234).

Não devemos, pois desprezar a importância do movimento na aprendizagem, como um dos principais aspectos do desenvolvimento humano.

Somente o desenvolvimento perceptivo-motor adequado garantirá a criança uma concepção mais ajustada sobre o mundo externo que a rodeia.

Dificuldades de aprendizagem simbólica (representação do mundo de forma verbal, escrita e teleológica), refletem uma deficiente integração das noções de espaço e tempo que são fundamentais para a organização do sistema sensório-motor da criança.

Qualquer aprendizagem escolar quer se trate de leitura, escrita ou de cálculo é, fundamentalmente, um processo de relação perceptivo-motora.

A educação física, portanto não deveria estar no hall de atividades diversificadas (e muitas vezes facultativas) do currículo da educação formal de zero a seis anos, como vem sendo oferecida na maioria das escolas particulares através de mínima carga horária (1 a 2 vezes por semana).

A Educação Física nas classes de Educação Infantil deve possibilitar às crianças uma maior integração com o mundo em que vivem, desenvolvendo a cultura corporal através de movimentos que ampliem suas experiências, respeitando suas características e necessidades.

Segundo o RCNEF:

"As instituições de educações infantis devem favorecer um ambiente físico e social onde as crianças se sintam protegidas e acolhidas, e ao mesmo tempo seguras para se arriscar e vencer desafios.” (MEC/SEF, 1998, p 15)".

Sendo assim, a prática educativa da Educação Física Escolar, no âmbito da Educação Infantil, deverá possibilitar a exploração de gestos e ritmos corporais em brincadeiras e em situações de interação, e com isso, possibilitar atividades que levem a criança a conhecer, explorar e controlar o próprio movimento e recursos motores.

O desenvolvimento físico é importante para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional, enquanto a criança explora o espaço em que vive e se relaciona com o outro.

Educação FísicaConforme Basei (2008), a educação física tem um papel fundamental na Educação infantil, pela possibilidade de proporcionar às crianças uma diversidade de experiências através de situações nas quais elas possam criar, inventar, descobrir movimentos novos, reelaborar conceitos e ideias sobre o movimento e suas ações.

Conforme Bürger e Krug (2009), a Educação Física na Educação Infantil precisa objetivar o desenvolvimento global, em que o movimento dê margem a criança, através de suas descobertas, de sua criatividade, expressar-se, conhecer, analisar e transformar sua realidade.

Canfield (2000 apud BÜRGER; KRUG, 2009), afirma que a escola é responsável por oferecer a criança práticas motoras diversificadas, pois ela é essencial e determinante no processo de desenvolvimento. Os educadores também possuem importante papel nessa instância de educação, sua capacitação e interesse em perceber as capacidades necessárias e limitações das crianças que estão em determinado período em sua tutela. Cabe ao professor oportunizar e facilitar tal desenvolvimento psicomotor, através de estímulos adequados.

As aulas de Educação Física na Educação infantil precisam proporcionar um ambiente que estimule a criatividade e a investigação, através da brincadeira, favorecendo ao surgimento de atividades em que prevaleça a solidariedade, a responsabilidade e o respeito dos direitos humanos. Parte-se também do respeito da diversidade cultural e da compreensão dos valores morais presentes em todas as ações humanas, considerando-os como princípios da ação educativa, possíveis inclusive de serem transformados em temas educacionais (BÜRGER; KRUG, 2009).

As aulas de Educação Física necessitam ser planejadas, ter objetivos a serem atingidos e não somente aplicar as atividades aleatoriamente. O professor de Educação Física na Educação Infantil deve ser o mediador entre o conhecimento e o aluno, proporcionando para as crianças múltiplas vivência de movimentos.

O especialista em Educação Física deve ser um estudioso da ação corporal. [...] quando alguém pega uma bola, já não existe mão e bola, mas uma fusão das duas coisas em algo chamado ação” (FREIRE, 1999, p. 30).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • BASEI, Andréia Paula. A Educação Física na Educação Infantil: a importância do movimentar-se e suas contribuições no desenvolvimento da criança. Revista Iberoamericana de Educación, Santa Maria, p. 12, out.2008.
  • BÜRGER, Leisa Caetano; KRUG, Hugo Norberto. Educação Física Escolar: um olhar para a Educação Infantil. Revista Digital – Buenos Aires, 2009.
  • CAMPOS, M.M. A formação de professores para crianças de 0 a 10 anos: modelos em debate.
  • Educação & Sociedade: formação de profissionais da educação: políticas e tendências, n.68, p.126-142,1999.
  • Educação infantil pós LDB: rumos e desafios. Campinas, Autores Associados/FE/UNICAMP, 1999. p.67-97. FARIA, A.L.G.; PALHARES, M.S., orgs.
  • FREIRE, João Batista. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. 4. ed. São Paulo: Scipione, 1999. 224 p. (Pensamento e ação no magistério)
  • OLIVEIRA, Z.M.R. A brincadeira e o desenvolvimento infantil: implicações para a educação em creches e pré-escolas. Motrivivência, v.8, n.9, p.136-45,1996.
  • SAYÃO, D.T. Educação física na educação infantil: riscos, conflitos e controvérsias. Motrivivência, v.11, n.13, p.221-38, 1999.
 

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FabioFábio Emmanuel

Coordenador Pedagógico da SME-RJ. Professor da Escola Modelar Cambaúba.

 

 

 

 

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